Produção de Presença

Este segundo eixo das discussões tem a finalidade de fazer ressoar um embasamento teórico, ressaltando o papel das imagens fotográficas no registro e difusão da experiência ritual, e na compreensão do universo cultural e sagrado dos terreiros. Assim, explora a capacidade da fotografia de agenciar debates contemporâneos.

Os fotógrafos André Vilaron, Duda Bentes, Luiz Alves, Jorge Luiz Alvarez Pupo, Adenor Gondim, Bauer Sá, Aristides Alves, Vantoen Pereira Júnior, Mirian Fichtner, Denise Camargo, Paulo Rossi, Márcio Vasconcelos e o curador Diógenes Moura promovem essa discussão, por meio da análise de trabalhos fotográficos. Análises de trabalhos de Mario Cravo Neto, Pierre Verger e José Medeiros inventariam as referências visuais sobre o tema.

Memória e visibilidade dos terreiros marcam o primeiro debate

por Paulo Rossi

Duas linhas de raciocínio complementares marcaram as falas dos debatedores no primeiro encontro do projeto Corpo-imagem dos terreiros, em Brasília. A primeira abordou os terreiros como um território ancestral cujo espaço sagrado deve ser preservado. A segunda trouxe para a discussão o papel da fotografia no registro dos espaços e do viver interno e externo dos terreiros, como uma forma de valorizá-los, pelo conhecimento propiaiado pela imagem.

Rafael Sanzio, professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília, apontou, nesse sentido, para a falta de projetos para os diversos “Brasis”, especialmente, para o Brasil africano. A terra, que é fundamental para a existência humana, para o africano é uma referência sagrada em virtude da importância ancestral que ela exerce. No Brasil, o terreiro é uma maneira de se referir à terra sagrada. Nela, todos compartilham a mesma sensação de pertencimento. No Brasil rural, Sanzio nos mostrou que os quilombos contemporâneos têm uma organização espacial que remete à forma de sociabilidade e de hábitos das culturas africanas ancestrais. Mas a inexistência de projetos que contemplem o Brasil africano faz que muitas dessas comunidades quilombolas e os vários terreiros no espaço urbano não sejam preservados.

Na contramão da intolerância religiosa, especialmente a que atinge as crenças de matriz africana, como enfatizou o fotógrafo Luiz Alves, e da não preservação dos terreiros, a fotografia pode servir para dar visibilidade às religiões afro-brasileiras, como também pode exercer papel preponderante na preservação da memória dos terreiros e dos rituais religiosos.

Tiago Quiroga, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, propôs que a fotografia se coloque como forma de resistência e de permanência da memória, daí a relevância de trabalhos fotográficos como os de André Vilaron, Luiz Alves e Duda Bentes dentre outros, que foram apresentados nesse primeiro dia.

Cada vez mais a fotografia é empregada como instrumento de pesquisa acadêmica, prática que cresce nas universidades, e onde o tema da religiosidade afro-descendente ocupa lugar de destaque.  É fundamental, no entanto, que se desenvolva um aprendizado do olhar sobre essas fotografias para se perceber os elementos da cultura africana.

De certo modo, a fotografia permite alguma visibilidade a essas religiões. A questão que se coloca, entretanto, é que visibilidade é esta e qual visibilidade se pretende alcançar. Jacira da Silva, da Cojira – DF, Comissão de Jornalistas para Igualdade Racial, da plateia, indagou até que ponto a fotografia não estaria contribuindo para o fortalecimento dos estereótipos sociais a respeito das religiões de matriz africana.

Sua preocupação é acolhida por uma das principais características dessa cultura religiosa. O fato de que é a vivência no interior dos rituais que fortalece essas manifestações culturais. Talvez, por isso, ainda, a fotografia seja vista por terreiros tradicionais com negatividade, pois ela não daria conta da totalidade da experiência de vida promovida dentro dos terreiros. O sacerdote Roberval Falojutogun Marinho, em seu depoimento para o debate em São Paulo, em 28 de outubro, pontua esta questão.

Finalmente, vale a pena ressaltar dois aspectos que foram suscitados, mas que ficaram na periferia do debate: a estética fotográfica e a atuação do fotógrafo no registro dos rituais e dos terreiros.

Duda Bentes, fotógrafo e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, foi quem mais avançou sobre este assunto. Ele destacou sua metodologia de trabalho no ato de fotografar os terreiros associando-a à finalidade das fotografias, a saber, responder a um estudo de campo sobre os terreiros, e disponibilizar as fotografias para as casas-de-santo fotografadas, para que fizessem uso delas. Para tanto, foi preciso escapar do “papo de fotógrafo”, ou seja, evitar um olhar esteticizante sobre o assunto. Tiago Quiroga remarcou os aspectos técnicos e estéticos presentes na obra do fotógrafo André Vilaron, e o fotógrafo Luiz Alves destacou certos aspectos técnicos presentes em algumas de suas imagens como forma de valorizar determinados elementos presentes na imagem. Para finalizar, elaborei uma síntese a partir de um trabalho realizado durante a festa de Iemanjá, na praia de Tambaú, em João Pessoa – PB. Por meio delas, acredito, trago um olhar completamente leigo sobre esse orixá, cujas comemorações são muito populares no Brasil, mas compromissado com o ver fotográfico.

Talvez a questão proposta por Jacira da Silva possa servir de provocação para os próximos debates. Pensar a visibilidade e os estereótipos sociais a respeito das religiões afro-brasileiras, por meio de leituras críticas das fotografias nos âmbitos da forma e do conteúdo, pode ser um avanço para a agenda contemporânea que trata destas questões no Brasil.

E mais, poder-se-ia abrir a discussão sobre o modo como tais trabalhos são apresentados e trabalhados junto ao público de dentro e de fora dos rituais. E, quem sabe, ainda, com um pouco mais de dificuldade, pensar a recepção desses trabalhos pela mídia e pela crítica de arte.

3 respostas a Produção de Presença

  1. Acredito que este trabalho enriquecerá muito mais a cultura e a religiosidade dos terreiros. Quero poder participar destes eventos e debates em São Paulo.

    Ogún Ipemí

    • denise disse:

      Carlos, obrigada por sua mensagem. Por favor envie uma mensagem para oju.cultural@gmail.com e coloque no assunto seu nome completo e o nome da cidade em que ocorre o debate a que você vai assistir. A resposta automática é a sua inscrição. Contamos com sua presença. Por favor divulgue para sua rede. Um abraço.

    • denise disse:

      Carlos,
      Muito obrigada pela confiança neste projeto! Peço a você que ajude a divulgá-lo. Lembro que todo o contéudo produzido nos debates (vídeos integrais, fotografias, textos dos debatedores) ficarão à disposição no site para ampliar ainda mais as discussões. Participe.
      um abraço,
      Denise Camargo