Experiência Ritual

Este eixo das discussões tem a finalidade de inventariar os terreiros e sua importância da formação do território brasileiro como uma forma de resistência simbólica e cultural dos descendentes de escravos e a importância das manifestações religiosas para assegurar o patrimônio de origem africana e sua manutenção no contexto da diversidade étnica brasileira, considerando o universo étnico dos candomblés que vai além da presença única de negros – o que demonstra a forte influência que essa cultura teve na formação da identidade nacional.

Este tema foi formulado, exemplarmente, por Muniz Sodré no livro O terreiro e a cidade (2002) e nos serve como ferramenta teórica para discussão. O geógrafo Rafael Sanzio Araújo dos Anjos (UNB) também a discute em suas preocupações geográficas, tratando especialmente dos territórios étnicos e das referências africanas, as ancestralidades pra o entendimento da cultura brasileira. Mohammed ElHajji (UFRJ) contribui trazendo para o debate o ponto de vista da diásporas africanas. Roberval Falojutogun Marinho (Opô Afonjá/UCB), Rina Nemenz (Tenda de Umbanda do Caboclo Imaraji) e Marco Aurélio Luz (Ilê Asipá/UFBA) trazem as discussões sobre o cotidiano em diferentes aspectos de suas atuações tanto como escritores, como iniciados ao culto, revelando suas matrizes. Reginaldo Prandi discorre sobre as relações mitológicas no cotidiano dos terreiros, e Marcelo Bernardo da Cunha (Mafro/CEAO/UFBA), sobre a iconografia das diásporas.

Terreiros: territórios simbólicos na cultura afro-brasileira

por Denise Camargo, 30/09/2010

Os terreiros das religiões de origem negro-africana se apresentam, ainda nos dias de hoje, como um pólo de resistência cultural e simbólica que encontra na poética do transe, nas relações estéticas dos objetos, no estatuto arquetípico, na festa pública e nos espaços sagrados, sua representação.

No Brasil, as tensões seculares do sistema escravista poderiam ter levado a sua extinção. Entretanto sobreviveram, adotando características regionais. Candomblé; umbanda; tambor de mina, no Maranhão; xangô no Recife, batuque do Rio Grande do Sul, são religiões nascidas na resistência negra de diferentes nações, como  jeje, fon, mina, e que preservaram cultos e matrizes semelhantes. É ali que os ritos e mitos se expressam, pela crença de que entidades vêm à terra celebrar com seus descendentes míticos.

Os terreiros, tradicionalmente, demarcaram uma posição relevante para a diáspora negra e, consequentemente, para a concepção de imagens a seu respeito. Elas produzem conhecimentos capazes de revelar a materialidade da experiência religiosa. E podem se converter em ferramenta fundamental para uma reflexão crítica sobre essa cultura.  Cabe lembrar que o catolicismo se difundiu, historicamente, dentro de padrões iconográficos e de produção material de imagens que lhe deram visibilidade e, por isso mesmo, credibilidade.

Ao tocar nas imagens produzidas no âmbito dos terreiros, a aposta é na desconstrução de visões errôneas e estereotipadas, tão recorrentes, sobre a realidade afro-brasileira para trazer à luz as comunidades, suas vivências, suas culturas ancestrais e cotidianas e suas atitudes históricas, políticas, culturais, religiosas e artísticas, por meio das imagens tomadas a seu respeito.

A imagem e os terreiros do Distrito Federal

por Denise Camargo

Em Brasília, os terreiros têm sofrido fortes ataques.  Em 2007, vândalos destruíram o único espaço destinado às comunidades tradicionais de religiões de matriz africana e brasileira, a Praça dos Orixás, na Prainha, ponto turístico próximo à Ponte Costa e Silva,  às margens do Lago Paranoá. “Chegou-se ao absurdo de degolar e queimar uma estátua de Iemanjá”, pontua  o fotógrafo Luiz Alves, durante o debate.

Nestes tempos em que a religião ronda o debate político, é importante salientar que o Brasil é um país laico, portanto a liberdade de expressão religiosa precisa ser respeitada. Para ele, o conhecimento propiciado por meio da fotografia é uma forma de combater sinais claros de ódio e intolerância.

Sobre os terreiros do Distrito Federal, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN -DF) lançou no início de 2010 o livro  Inventário dos Terreiros do Distrito Federal e Entorno. A pesquisa foi realizada pela ONG Associação Positiva de Brasília, e coordenada pelo doutor em educação Jorge Manuel Adão. As entrevistas foram feitas pelos pesquisadores Alexandre Pondes, Jarbas Renato Nogueira, Ada Dias Pinto e Tiago Gomes de Araújo.

Também o  trabalho de documentação visual das comunidades de terreiro do Distrito Federal, iniciado pelo sacerdote Roberval Falojutogun Marinho e pelo fotógrafo Duda Bentes, ressalta a importância da criação de visibilidade sobre os terreiros.

 

 

2 respostas a Experiência Ritual

  1. Tenho certeza que será uma discussão de grande nível nos ajudando a continuar o debate com novos frutos.

    • denise disse:

      Obrigada por sua aposta, Rosemberg!
      Contamos com sua presença “presencial” nos próximos debates, se você puder, ou on-line, acompanhando as transmissões ao vivo.
      um grande abraço,
      Denise Camargo