Cosmogonia africana, identidades e iconografia são o foco do último debate

por Denise Camargo  

Em Exu, Bauer Sá compõe a mítica da divindade representada por um falo.

O Centro de Estudos Afro-orientais  (CEAO) , da Universidade Federal da Bahia, sediou a última mesa de debates do projeto Corpo-imagem dos terreiros. O debate integrou a programação da Semana da Consciência Negra realizada pela instituição. A edição teve, ainda, o apoio institucional da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia (Prodeb) , para a transmissão ao vivo. O vídeo do debate estará disponível aqui  e também no portal do e Programa Cultura Pensamento,  em breve.  

A mesa, composta por Marco Aurélio Luz (membro da comunidade Ilê Asipá), Marcelo Bernardo da Cunha (Mafro/CEAO/UFBA) e os fotógrafos Adenor Gondim, Bauer Sá e Aristides Alves, ressalta o mecanismo simbólico das imagens no agenciamento de identidades e na diversificação da cultura, ao registrar diferentes aspectos da população negro-africana. As discussões se dão do ponto de vista de um universo particular – o do corpo-terreiro, na formulação de um corpo-imagem e se desdobram para abranger a formação da identidade nacional e sua expressão.  

Marco Aurélio Luz, por exemplo, revela o contexto de produção de imagens na dinâmica do segredo dos cultos, lembrando as importantes contribuições de Pierre Verger e José Medeiros. Marcelo Bernardo da Cunha traça, especialmente, as questões relativas a uma iconografia das diásporas. Suas reflexões apontam para como “o Brasil, ainda que fortemente constituído por tradições culturais africanas, construiu o seu sistema de representações sobre a presença de heranças negras na formação da chamada cultura nacional; através de lugares comuns, conceitos e preconceitos, que reduzem e desqualificam a força e a importância da presença de matrizes africanas na construção de formas de vida, trabalho, sensibilidades,  transformações, incorporações e inovações nas sociabilidades de tempos e espaços no contexto afro-brasileiro”.  Seu desafio neste debate é apontar para a dissolução de estereótipos, considerando a produção das imagens dos negros, ao longo dos tempos.  

Bauer Sá traz sua  poética visual que acentua as  identidades negras, por meio de um apelo visual fortíssimo. São retratos em estúdio que revelam e, ao mesmo tempo, interpretam os estereótipos da mítica negra e deixam entrever fortes aspectos políticos e mitológicos tratados com densidade e sutileza. A proposta de sua participação no debate é instaurar um conceito de imagem autorreferente, quase um autorretrato de sua cultura negra e sua auto-afirmação. 

Aristides Alves conta sobre o processo de edição de imagens no ensaio No terreiro de Mutá Lambô ye Kaiango em que resgata o cotidiano dessa comunidade tradicional. Adenor Gondim aborda neste debate as particularidades do sincretismo de sua Bahia mítica, do cotidiano das comunidades tradicionais em que os mitos e ritos de origem africana se expressam, em especial, as irmandades religiosas, trazendo com suas imagens o entrelaçamento da cosmovisão africana ao catolicismo, que os negros escravizados encontraram no Brasil, por meio do universo sagrado das irmandades religiosas. 

Aristides Alves resgata o cotidiano do Terreiro Mutá Lambô ye Kaiango.

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